quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Pesquisa interna do PV

Orjan Olsen fará pesquisas para Marina Silva


A pré-candidata do PV a presidente, senadora Marina Silva (PV), fechou um pacote de pesquisas e acompanhamento diário (tracking) das intenções de voto com o pesquisador Orjan Olsen, da Analítica Consultoria.

Quem vai pagar por esse trabalho, que é caríssimo? Não está claro. Em tese, um conjunto de empresas simpatizantes da candidatura de Marina bancarão os serviços de Olsen. Entre essas empresas, até bancos entram na dança. Algumas empresas são do exterior.

Onde está a notícia? O fato de a falta de transparência e os vícios serem idênticos em todas as campanhas eleitorais, sejam do PT, do PSDB ou do PV. Muitos dos serviços prestados nunca aparecem de fato nas contabilidades dos candidatos. São realizados acordos de bastidores. Empresas pagam diretamente ao prestador de serviços. O eleitor não fica sabendo de nada.

Olsen já realizou uma primeira sondagem para Marina. Eis os resultados da pesquisa domiciliar em 156 cidades do país, de 23 a 27 de janeiro:

1. pesquisa estimulada direta - sem identificação dos candidatos, seus históricos e por quem são apoiados:
Serra – 38%
Dilma – 26%
Ciro – 11%
Marina – 7%

2. pesquisa estimulada - com identificação do histórico dos candidatos e por quem são apoiados (por exemplo, dizendo que Dilma é ministra do governo Lula e é a candidata apoiada por Lula ou que Marina Silva é do PV e defende a causa ambientalista)
Serra – 35%
Dilma – 30%
Ciro – 11%
Marina – 9%

Na sondagem sobre o segundo turno, os cenários Serra/ Dilma resultam em 48% para o tucano contra 32% da petista quando não há identificação dos candidatos. Quando ambos são identificados, o resultado muda para Serra com 44% X Dilma com 38%.

Em resumo, os resultados da pesquisa reservada de Marina Silva não diferem em essência de todas as outras pesquisas de opinião já divulgadas no país.

Blog do Fernando Rodrigues
http://uolpolitica.blog.uol.com.br/

Artigo de Marina Silva sobre Belo Monte

Pandora é aqui?


O Ibama concedeu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se de um projeto muito polêmico, localizado no rio Xingu, no Pará, próximo ao município de Altamira, numa região conhecida como Volta Grande do Xingu. O nome deve-se ao desenho do rio que, visto de cima, assemelha-se a uma "ferradura".

Por meio de barragens, as águas do rio serão desviadas para um canal que unirá as pontas mais próximas dessa "ferradura". Ao final desse canal, as águas passarão pelas turbinas antes de retornarem ao seu curso normal.

Como tudo na Amazônia, os números que envolvem a obra são gigantescos. A quantidade de terra e pedra que será retirada na escavação do canal é cerca de 210 milhões de m³ - um pouco menor da que foi removida na construção do Canal do Panamá. E ainda nem se definiu qual a destinação desse material.

Pelo leito do rio Xingu passa uma vazão de 23.000 m³/s de água no período de cheia. Um volume correspondente a quatro vezes a vazão, também nos períodos de cheia, das Cataratas do Iguaçu.

Os impactos socioambientais também terão essa mesma ordem de grandeza. E ainda não foram concluídos. Só sobre a fauna, segundo dados coletados durante o Estudo de Impacto Ambiental, podemos ter uma idéia. Na área existem 440 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção, como a arara-azul), 259 espécies de mamíferos (40 de porte médio ou grande), 174 de répteis e 387 de peixes.

Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra colossal que custará certamente mais de R$ 30 bilhões - se somados todos os gastos, como o custo e a extensão da linha de transmissão, por exemplo - terá uma capacidade instalada de gerar, em média, 4.428 MW, em razão do que poderá ser suportado pelo regime hídrico do rio, nesta configuração do projeto. E não os 11.223 MW que estão sendo equivocadamente anunciados.

A energia média efetiva entregue ao sistema de distribuição será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica indica que essa eficiência seja de pelo menos 55%.

Para que Belo Monte possa apresentar um grau de eficiência energética compatível com as recomendações técnicas, seria necessária a construção de outras três hidrelétricas na bacia do rio Xingu, que teriam a função de regularizar a vazão do rio. Por ora, a construção dessas usinas foi descartada pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras pertencem aos indígenas.

No entanto, a insistência em manter o projeto nessa dimensão (apesar de haver alternativa de barragem com quase metade da capacidade instalada e perda de pouco mais de 15% na potência média gerada) provoca forte desconfiança, tanto dos analistas como das comunidades e dos movimentos sociais envolvidos, de que a desistência de construir as outras três hidrelétricas seja apenas temporária.

A população indígena - são mais de 28 etnias naquela região - ficará prensada entre as cabeceiras dos rios que formam a bacia, hoje em processo acelerado de exploração econômica e com alto nível de desmatamento acumulado. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.

É incrível que um empreendimento com esse nível de interferência em ambientes sensíveis seja idealizado sem um planejamento adequado quanto ao uso e à ocupação do território.

A solução de problemas dessa dimensão não pode ser delegada exclusivamente a uma empresa com interesse específico na exploração do potencial hidrelétrico, com todas as limitações conhecidas do processo de licenciamento.

Com a obra, são esperadas mais de 100 mil pessoas na região. Não há como dar conta do adensamento populacional que será provocado no meio da floresta amazônica, sem um planejamento para essa ocupação e um melhor ordenamento do território. Isso só pode ser alcançado através da elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável na região de abrangência da obra.

Essa foi uma grande omissão nesse processo, mas não a única. Não temos como deixar de indagar se não há outros aproveitamentos hidrelétricos que seriam mais recomendados, sob o ponto de vista dos impactos ambientais ou da eficiência energética.

No entanto, não há projetos com estudo de viabilidade técnica e econômica prontos para serem submetidos ao licenciamento ambiental. Apesar de o diagnóstico ser conhecido desde 2003, apenas em meados do ano passado foram finalizadas as primeiras revisões de inventário de bacia hidrográfica, como a do Tapajós.

Com isso, projetos polêmicos e com grandes impactos têm que ser analisados em prazos muitas vezes incompatíveis com o grau de rigor que deveriam ter, numa clara demonstração de como, muitas vezes, os ativos ambientais são afetados pela falta de planejamento de outros setores de governo.

Porém, nada foi mais afetado do que nosso compromisso ético frente à responsabilidade com o futuro de povos e culturas. Não foram sequer feitos estudos sobre os impactos que os povos indígenas terão. Só para exemplificar, o que significará para eles ter a vazão reduzida significativamente num trecho de 100km em função do desvio das águas para o canal? O plano de condicionantes tampouco menciona a regularização de duas Terras Indígenas (Parakanã e Arara), já bastante ameaçadas.

Estas e outras comunidades indígenas manifestam inconformidade por não terem sido ouvidas adequadamente, segundo os preceitos da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, mas nunca implementada para valer.

O Brasil possui um importante potencial de geração de energia hidrelétrica a ser desenvolvido. Mas as dificuldades em retomar o planejamento do setor na velocidade que possibilite escolhas e uma análise segura por parte do setor ambiental, somada à indisposição em discutir uma proposta de desenvolvimento sustentável para as obras de infraestrutura localizadas na Amazônia, à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência energética do sistema (não só na geração) e para desenvolver as energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

Apesar dos discursos em contrário, ainda estamos operando no padrão antigo, que considera o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento. Temos ainda um longo dever de casa a ser feito para ingressarmos definitivamente no século 21. Quem pensa que a história relatada no filme Avatar só pode ocorrer em outro planeta, engana-se: Pandora também pode ser aqui.

Marina Silva é professora de ensino médio, senadora (PV-AC) e ex-ministra do Meio Ambiente.
Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br 

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Artigo de Fernando Rodrigues

No PT, nada ao vosso reino


Ciro Gomes reapareceu ontem em Brasília. Reafirmou sua decisão de ser candidato a presidente. Lembrou a todos ter acertado com Lula uma avaliação do quadro no final de março.

O PSB, partido de Ciro, só tem a ganhar com a manutenção da candidatura própria a presidente. Terá mais chance de eleger governadores, senadores e deputados. Pode sair maior das urnas.

Os socialistas herdeiros de Miguel Arraes até poderiam abrir mão desse projeto. O enrosco é a falta de contrapartida. Na oração do PT, só há espaço para o "venha a nós", e nada para o "vosso reino". Tal como está formatada, a coalizão petista é um ativo tóxico para o PSB. Eis os detalhes da proposta lulista:

1) Sacrifício: Ciro Gomes desiste de disputar o Planalto. Apoia Dilma Rousseff. De quebra, o PSB aceita enfrentar calado a oposição do PT em alguns Estados;

2) Missão: o PSB despacha Ciro para São Paulo para perder a eleição para o Palácio dos Bandeirantes. Ex-candidato a presidente duas vezes, dono de mais de 10% nas pesquisas nacionais e o primeiro a aderir incondicionalmente a Lula no segundo turno de 2002, Ciro também teria de servir de boca de aluguel do PT: passaria a campanha vituperando contra o PSDB em solo paulista, pois os petistas de modos atucanados como Aloizio Mercadante, Marta Suplicy e Antonio Palocci fazem de tudo, menos se indispor com José Serra;

3) Prêmio: nenhum. O PSB fica de mãos abanando e se dando por feliz com ministérios de segunda classe e sem expressão política. Assim é o tipo de aliança oferecida pelo PT. É também um prenúncio da voracidade e da hegemonia petista a partir de 2011 se o grupo de Lula vencer a disputa em outubro.

Antonio Palocci não desistiu de ser candidato ao governo de São Paulo. Foi "desistido" por Lula.

Fernando Rodrigues
Folha de São Paulo, 03/02/2010

Artigo de Ruth de Aquino

Mulher tem que ser braba mesmo?


O presidente Lula foi internado com hipertensão. O nome já diz: é tensão demasiada, dez compromissos em cinco cidades numa semana, levando na bagagem sua pré-pós-candidata, a ministra Dilma Rousseff. Num dia, Lula diz, orgulhoso, que “a bichinha está palanqueira”. Dias depois, em Pernambuco, pela primeira vez assume em comício o gênio forte da ministra: “As pessoas falam que a Dilma é braba. Vou lhe contar uma coisa. Mulher tem mais é que ser braba mesmo”.

Não sei o que será pior na campanha para Dilma: mudar ou não mudar o jeito, o tom, os temas. No fundo, colocou-se a ministra numa roubada. Seu amigo, o ex-guerrilheiro e ex-prefeito petista de Belo Horizonte Fernando Pimentel, afirma que ela deve assumir a fama de durona porque “tentar fazer Dilma parecer com Lula é ilusão”. É como diz Pimentel. Ela não é operária, não passou fome e não nasceu no Nordeste. É mineira de classe média alta, educada nos melhores colégios. Quando se apresenta a círculos menores, Dilma conta que o pai é búlgaro. Não dá para dizer isso em palanque. Búlgaro de quê?

O desafio cada vez mais claro e árduo de transferir votos para Dilma pode estar na raiz da hipertensão do presidente. Não é preciso ser médico para desconfiar. Porque, quando Dilma se acredita popular e se solta... aí mora o perigo. Em Pernambuco, conta a repórter de O Globo Letícia Lins, a ministra cometeu gafe após gafe ao inaugurar um posto de saúde ao lado de seu padrinho. Ela disse que o escritor Ariano Suassuna nasceu em Pernambuco – mas foi na Paraíba. Atribuiu a Suassuna a frase “nós somos madeira que cupim não rói”. A frase é do compositor Lourenço Barbosa, o Capiba. Errou o nome da cidade em que estava. Falou no prefeito “Romildo”, de Olinda. Só que ele se chama Renildo. Saudou Romero Jucá (PMDB) como líder do partido no Senado. Jucá é líder do governo.

Vamos dar crédito à ministra. É verão, faz muito calor. E o que lhe falta de traquejo lhe sobra em nervosismo. Não pode ser fácil mesmo tentar substituir Lula, o homem do povo que já governa o Brasil há quase oito anos e que, em Davos, na Suíça, receberia na sexta-feira o título de Estadista Global, caso a pressão não o traísse.

O problema não são as gafes da ministra, ainda pequenas (quem será que está escrevendo os discursos de Dilma?). A pergunta é outra: o povo brasileiro quer mesmo uma dama de ferro no poder? Será que, como disse Lula, “mulher tem que ser braba”? “Quem tem que ficar arreganhando os dentes todas as horas é o homem. A mulher tem que ser séria mesmo”, disse Lula. As urnas dirão se o povo concorda. Como Dilma se comportará, atacada em debate? O marqueteiro João Santana terá de fazer mágica. Amigos dizem que ela tem treinado postura e discurso. Só faltaria escolher “temas mais populares, deixando de lado o tom técnico”.

Na festa de 100 anos de dona Maria Amélia, a mãe de Chico Buarque, no Rio, Dilma estava lá, ao lado de Lula. O presidente foi um sucesso. E a ministra? Os convivas dizem que ela se esforçou para demonstrar simpatia. Mas, em festa de bamba, clima pré-Carnaval, ninguém vai conversar sobre PAC, pré-sal ou etanol. Ou sobre “a comissão da verdade”. Nome complicado esse. Pois, se existe uma comissão da verdade sobre vítimas da repressão, imaginamos que as outras... Bem, as outras devem ser de mentirinha.

Lula, sempre galante em sua defesa de Dilma, chamou de “babaca” o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, que não perde a chance de atacar o ponto fraco da ministra: “Foi ela quem liderou isso (o veto à suspensão de obras da Petrobras consideradas irregulares pelo Tribunal de Contas). Ela quer mandar em tudo. É autoritária”.

É pouco? Vem aí um trio da pesada para o diretório nacional do PT. Todos réus do mensalão: José Dirceu, cassado em 2005 e ex-ministro da Casa Civil; José Genoíno, presidente do PT até 2005, obrigado a sair pelo escândalo; João Paulo Cunha, presidente da Câmara no primeiro mandato de Lula. Objetivo: costurar alianças e articular a campanha da Dilma.

Um trio de ferro para uma dama de ferro.

Ruth de Aquino
Revista Época, nº 611 de 30/01/2010

Ciro resiste

Ciro diz que Lula ‘está errado’ e reafirma candidatura

De volta a Brasília, Ciro Gomes (PSB) reafirmou, para desassossego de Lula, o seu projeto presidencial.
Afastou, em termos peremptórios, a possibilidade de vir a se envolver na refrega eleitoral em São Paulo.
“Lula está errado ao querer que eu seja candidato a governador de São Paulo”.
Acha que sua exclusão do xadrez presidencial imporia a Dilma o risco de levar um xeque-mate do rival tucano José Serra já no primeiro turno.
Declarou que a retirada de sua candidatura ao Planalto só interessa a Serra. Daí a conclusão de que, nessa matéria, “o santo Lula está errado".
Inviabilizando-se como presidenciável, Ciro prefere "sair da vida pública” por um tempo: “Para mim, a política não é meio de vida".
Até quando vai esticar a corda? "Até onde puder, ou seja, outubro", o mês da eleição. Como que decidido a açoitar as dúvidas, Ciro foi às críticas.
Repetiu que a coligação que se forma ao redor de Dilma, escorada no PT e no PMDB, tem “moral frouxa”.
Como assim? Insinua que a aliança dos dois sócios majoritários da coligação governista traz um rastro de encrencas esperando para acontecer.
Nas palavras de Ciro: "Um roçado de escândalos semeado". Levou à roda o grão-petista José Dirceu, recém-reconduzido ao diretório nacional do PT.
Chamou de “golpista” a movimentação de Dirceu, espécie de costureiro informal do crochê partidário que o PT tenta tecer nos Estados.
Em São Paulo, Dirceu trabalha para acomodar Ciro nos calcanhares de Geraldo Alckmin, provável candidato do PSDB à sucessão de Serra.
Ciro contou que Dirceu o procurou. Em viagem à Europa, mandou dizer que estava “ocupado”. Com o quê? “Férias”.
De resto, Ciro disse que trabalhará para seduzir partidos que se disponham a formar com o seu PSB uma coligação.
Obsessivo, afirmou que só pensa na candidatura presidencial –“24 horas por dia”, segundo disse.
Em Fortaleza, o governador cearense Cid Gomes (PSB) ecoou Ciro. Disse que seu irmão vai mesmo às urnas como presidenciável.
Deu a entender que, a despeito das pressões, o PSB está fechado com Ciro. Tanto que o levará à vitrine em propaganda partidária prestes a ser exibida na TV.
“O programa é muito direcionado para fortalecer a sua posição como pré-candidato”, afirmou Cid.

Blog do jornalista Josias de Souza, 03/02/2010.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Explicando o lulismo

O lulismo quer congelar o Brasil

O lulismo deseja que Lula volte à presidência em 2014. Para que isso se torne possível, é preciso “congelar” o cenário como ele está hoje, ou seja, com Lula aparecendo nas pesquisas com mais de 80% de aprovação e sem nenhum nome expressivo que represente alguma possibilidade de “novidade” política e administrativa.

Considerada essa premissa, muita coisa se esclarece na estratégia eleitoral do Governo.

Explica, em primeiro lugar, a imposição de Dilma como candidata, sem discussão interna no PT e sem diálogo com os demais partidos da base aliada. Dilma é uma excelente candidata para o lulismo, seja para ganhar, seja para perder. Não tem cacife eleitoral. Jamais disputou uma eleição. Não é conhecida. Não é carismática. Portanto, se perder, terá sido pelas suas próprias limitações. Todavia, se vencer, terá sido, obviamente, pela capacidade de transferência do prestígio pessoal de Lula para a sua candidata, o que só reforça o lulismo. Dilma não teria, em nenhuma hipótese, condições de pleitear sua reeleição, deixando o caminho livre para que o lulismo construa o retorno de Lula à presidência.

Explica, em segundo lugar, a escolha de Serra como adversário principal. Serra é o melhor opositor para o lulismo, seja para ganhar, seja para perder. Perdendo, permite que Dilma fique “esquentando a cadeira” até Lula retornar. Caso vença, não terá derrotado Lula, mas apenas Dilma, com todas as suas limitações. Seu governo não poderá deixar de manter as conquistas sociais legadas por Lula. Sem carisma pessoal, Serra não seria um candidato difícil de ser derrotado por Lula em 2014, sobretudo se seu governo não conseguir êxitos comparáveis aos do governo anterior.

Explica, em terceiro lugar, a estratégia da polarização. Dilma e Serra representam essencialmente o mesmo. São a continuidade de um programa desenvolvimentista, fortemente lastreado em grandes obras de infra-estrutura, no fortalecimento da competitividade das grandes empresas, na defesa dos interesses dos grandes bancos. Qualquer dos dois representa “mais do mesmo”, ou seja, nenhum dos dois representa “novidade” política que ameace o lulismo.

Explica, finalmente, porque é importante impedir o surgimento de outras candidaturas que possam alterar esse cenário. Aécio candidato pelo PSDB seria uma incógnita. Poderia ter uma larga margem de vantagem em MG, segundo maior colégio eleitoral do país. Poderia desestabilizar a “base aliada” do Governo, pois atrairia apoios de vários partidos, incluindo o PMDB do vice de Dilma e o PSB de Ciro. Poderia, caso vencesse, destruir a falsa polarização entre PT e PSDB inventada em São Paulo.

Ciro é outra ameaça ao lulismo. Polemista de grande desenvoltura, pode ultrapassar Dilma na corrida eleitoral, enfrentando Serra num eventual segundo turno. Caso vitorioso, inauguraria uma nova política de alianças e um novo programa de governo, jogando o lulismo num cenário de completa incerteza. Essa é a razão pela qual o Governo gasta toda a sua energia para afastá-lo da disputa presidencial.

Marina talvez seja a mais séria ameaça ao lulismo. Protagonista de uma história de superação muito similar à de Lula, representante legítima de uma temática de grande relevância no mundo contemporâneo – o desenvolvimento sustentável, portadora de enorme prestígio internacional, única candidatura capaz de empolgar a juventude e os movimentos sociais, Marina representa uma inquestionável “novidade” política capaz de alterar completamente o cenário. Essa é a razão pela qual se articula um poderoso movimento de bastidores para tentar “desidratar” sua campanha, de modo que não tenha acesso aos apoios e meios materiais que possam torná-la mais competitiva.

Estamos diante de novos e crescentes desafios. Há uma crise civilizatória em curso, resultado da convergência de várias crises: a crise financeira internacional, a crise energética do fim da era do petróleo barato, a crise climática decorrente do aquecimento global. O mundo não dispõe de instrumentos democráticos de gestão dessas crises, que repercutem em todos os países. O Brasil pode e precisa ocupar um lugar de liderança na afirmação de um novo modelo de desenvolvimento, includente e sustentável. Mas para isso, é preciso que não fiquemos congelados no tempo, é preciso dar um passo além do lulismo.

Juarez de Paula

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Pesquisa CNT / SENSUS

CNT/Sensus dá empate técnico entre Serra e Dilma, mas só quando Ciro Gomes continua como candidato


• Cenário é de 33,2% para tucano e 27,8% para petista
• Se Ciro Gomes sai, Serra vai a 40,7% e Dilma fica com 28,5%
• Margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais

A mais recente pesquisa do instituto Sensus, bancada pela Confederação Nacional do Transporte, traz uma notícia muito boa e outra ruim para o PT. A boa é que a petista Dilma Rousseff está empatada tecnicamente com o tucano José Serra em primeiro lugar na disputa pelo Palácio do Planalto quando se considera a margem de erro da pesquisa. A notícia ruim é que esse cenário só existe quando Ciro Gomes (PSB) está no páreo.

Como Serra tem 33,2%, pode variar de 30,2% a 36,2% (a margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos). E Dilma, de acordo com a margem de erro da Sensus, pode variar de 24,8% a 30,8%. Ou seja, se Serra estiver próximo de seu limite mínimo e Dilma próxima de seu limite máximo, ambos estariam hoje juntos.

A julgar pelo cenário atual, a polarização apenas entre PSDB e PT, tão desejada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda depende da presença de Ciro Gomes na lista de candidatos. Até porque, se Ciro sai e se a eleição fosse hoje, José Serra iria a 40,7% e praticamente levaria no primeiro turno – pois a soma de Dilma e de Marina Silva (PV) daria 38%. Como a margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais, não se pode afirmar que o tucano ganha no primeiro turno com 100% de certeza.

É necessário sempre ressalvar, entretanto, que a eleição é só em 3 de outubro e há uma candidata claramente em linha ascendente (Dilma) e outro (Serra) que às vezes cai e às vezes se mantém estável na faixa acima dos 30% (e batendo em 40% quando Ciro está fora).

No caso de Marina Silva, a situação não é das melhores. Ela varia de 6,8% a 9,5%. Nesta semana, terá seus 10 minutos na TV (no programa partidário do PV). É a esperança que tem para atingir um público mais amplo.

Já Ciro Gomes também tem, a exemplo do PT, duas notícias, uma boa outra ruim. A boa é que o PT depende de Ciro, pelo menos por enquanto, para levar a disputa com folga para o segundo turno. A notícia ruim é que o deputado federal pelo PSB do Ceará está com apenas 11,9%, bem atrás dos 27,8% de Dilma.

A seguir, os números da pesquisa Sensus divulgada hoje (1.fev.2010):

Cenário com Ciro:

José Serra - 33,2%

Dilma Rousseff - 27,8%

Ciro Gomes - 11,9%

Marina Silva - 6,8%

Nenhum/Branco/Nulo - 10,5%

NS/NR - 9,9%

Cenário sem Ciro

José Serra - 40,7%

Dilma Rousseff - 28,5%

Marina Silva- 9,5%

Nenhum/branco/ Nulo - 11,4%

NS/NR - 10%

Metodologia

2.000 entrevistas

Margem de erro: 3 pontos percentuais

Data da coleta de dados: de 25 a 29 de janeiro de 2010


A seguir, os dados sobre a avaliação do governo Lula e do desempenho pessoal do presidente:


Avaliação do governo:

Positivo - 71,4%

Regular - 22,0%

Negativo - 5,8%

Desempenho pessoal de Lula:

Aprova- 81,7%

Desaprova - 13,9%


Blog do Fernando Rodrigues