terça-feira, 5 de outubro de 2010

Artigo de Aldo Fornazieri

Uma dura lição para o PT


Como o processo eleitoral ainda não terminou, o resultado do primeiro turno permite afirmar que o PT saiu dele com uma derrota relativa: não alcançou seu principal objetivo, que era o de eleger Dilma Rousseff sem a necessidade de um segundo turno. De quebra, a oposição saiu fortalecida nas disputas estaduais, com quatro governadores eleitos pelo PSDB e dois pelo DEM. O PSDB manteve os seus dois principais baluartes: São Paulo e Minas Gerais; e o DEM não foi extirpado da política brasileira. A conquista do Paraná foi contrabalançada pela perda do Rio Grande do Sul.

O novo fracasso do PT nos dois principais colégios eleitorais do País revela duas coisas: em Minas houve um enorme erro de estratégia com o não lançamento de uma candidatura própria. Em São Paulo o PT precisa mudar de rumos e apostar em novas lideranças. Com a vitória de Tarso Genro no primeiro turno, o eixo de poder no PT passa por fora do Sudeste.

O resultado final em 18 Estados, com 4 governadores do PMDB, 4 do PT, 3 do PSB e um do PMN, mostra um quadro de equilíbrio entre governo e oposição, o que é salutar para a democracia, já que impede um hegemonismo desequilibrador de uma sigla. A oposição fugiu do apocalipse que se anunciava, é verdade. Mas terá de se reconstruir, pois PSDB e DEM são partidos fragmentos, sem base social e sem eixos programáticos claros, capazes de lhes conferir identidade e sentido.

Marina Silva foi a grande vencedora do primeiro turno. Ganha força para negociar uma agenda com um dos candidatos - Dilma ou José Serra. Um purismo olímpico de Marina neste momento representaria um não dar consequência à sua expressiva votação.

Serra vai para o segundo turno não por méritos próprios, mas graças ao desempenho de Marina. O que ele ganhou é uma oportunidade de se reabilitar, de reconstruir sua credibilidade, de apresentar uma agenda para o Brasil, pois a sua campanha no primeiro turno foi sofrível, errática e sem foco. O segundo turno, de qualquer forma, recoloca em cena aquilo que se previa no início do processo eleitoral: uma campanha dura e polarizada entre Dilma e Serra. Naquele momento se esperava até mesmo que Serra pudesse chegar à frente de Dilma no primeiro turno.

Dilma fez uma campanha centrada nas realizações do governo, mas também deficitária em termos de agenda futura. O que mais pesou para o seu recuo na reta final, e a ascensão de Marina, foram a tradicional arrogância petista, ancorada numa sede desmedida de poder, e a insistência em não aprender com os erros do passado. Três erros graves da campanha governista determinaram o segundo turno.

O primeiro erro foi o escândalo envolvendo Erenice Guerra. Alegar desconhecimento do tráfico de influência na Casa Civil é absolutamente insustentável, pois o governo dispõe da Abin, da Política Federal e de outros órgãos de controle interno para saber o que se passa no alto escalão governamental e no seu entorno. O que o episódio Erenice demonstra é que o PT e o governo abandonaram os cuidados necessários com o tema da moralidade pública, acreditando que o poder é uma espécie de salvo-conduto para práticas antirrepublicanas. Na verdade, desde que chegou ao poder, o PT foi enfraquecendo sua vértebra republicana, caminhando para a vala comum dos outros partidos nesse quesito. Não é raro ouvir de militantes petistas a tese de que sem essas práticas não se governa. O que a evidência tem demonstrado é que a assimilação dessas teses e dessas práticas representa muito mais risco do que benefício político, além de uma descaracterização em termos de valores republicanos.

O segundo erro, na reta final da campanha, consistiu em morder a isca, pisar na casca de banana jogada pelos adversários. Os petistas - presidente Lula à frente - passaram a atacar a imprensa, abrindo o flanco para que proliferassem acusações de antidemocratismo e para que se publicassem manifestos em defesa da liberdade de expressão, reanimando o medo que é tônica nas campanhas desde 1989, quando Lula chegou perto da vitória. O próprio presidente parece ter-se esquecido de que o que ganha votos são mensagens positivas, simplicidade e um estilo "Lulinha paz e amor".

O terceiro erro foi em torno do polêmico tema do aborto. Inicialmente, documentos do PT o declararam a favor do aborto. Dilma manteve uma posição ambígua sobre o assunto até que, na véspera das eleições, no contexto de perda de votos por causa das dúvidas sobre sua posição, ela se manifestou contra o aborto. Mas já era tarde. Aqui também há uma falta de aprendizado com a História. Temas morais, altamente sensíveis para a maioria das pessoas comuns, merecem todo o cuidado no trato dispensado por candidatos majoritários. Um presidente da República deve ser o símbolo da unidade da Nação. Os temas morais polêmicos devem ficar no âmbito do Legislativo.

Dilma e Serra precisam extrair uma bela lição da campanha de Marina. Não são apenas cimento, ferro, estradas e obras que rendem votos. O "eu fiz" ou "fiz mais" também não resolve tudo. Uma campanha para a Presidência precisa irradiar valores vinculantes, uma perspectiva de civilização. Os dois candidatos mais votados pouco falaram de valores.

Uma eleição presidencial é também uma promessa de futuro, uma visão de destino que a sociedade quer e precisa se dar. O futuro não se define apenas no factível em termos de obras, mas também na regulação social pelo metro dos valores. A política é um dos fatores sociais nos quais os indivíduos querem encontrar uma razão de vida. A política é a atividade que consegue configurar de forma mais abrangente um sentido de pertencimento a uma comunidade de destino. Uma disputa presidencial apartada de valores e de sentido civilizador perde a sua razão principal de ser.

ALDO FORNAZIERI
DIRETOR ACADÊMICO DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO (FESPSP)

O Estado de São Paulo, 05/10/2010

Artigo de Augusto de Franco

A derrota política do lulo-petismo


Marina contribuiu para separar o joio do trigo em uma base eleitoral que o governo acreditava cativa e abriu fenda no esquema neopopulista

Contra fatos não há argumentos.

E "o dado concreto" é que os brasileiros, em sua maioria, não apoiaram o terceiro mandato de Lula (por interposta pessoa).

Os quase 47% dos votos de Dilma configuram uma derrota política, se considerarmos o fortíssimo empenho da máquina estatal a favor de sua candidatura e o engajamento exorbitante do presidente da República -como "nunca antes se viu neste país"- em prol da sua vitória no primeiro turno.

Com efeito, Lula abandonou a sua posição de magistrado para se engajar na guerra eleitoral da forma mais rasteira, transformando vítimas em culpados, levantando solertes suspeições, falsificando a opinião pública, investindo contra a liberdade de imprensa.

Ele cometeu esse erro porque estufou com seus 80% de popularidade. Perigo! Em política, a hiperinflação do ego costuma vir acompanhada de pretensões despóticas. E o sujeito possuído pelo mito que criou sobre si mesmo acredita-se o único eleitor e acaba confundindo popularidade com legitimidade.

Em certa época, 99% dos albaneses achavam o governo do ditador Hoxha ótimo ou bom. Saddam, nos seus tempos de glória, alcançou 96% de aprovação dos iraquianos.

Fujimori, quando deu um golpe em 1992, dissolvendo o Congresso e intervindo no Judiciário, chegou a 80% de popularidade no Peru.

Na lista das duas dezenas de ditadores remanescentes, de Lukashenko (em Belarus) a José Eduardo (em Angola), de Kim Jong Il (na Coreia) a Gaddafi (na Líbia), dos irmãos Castro (em Cuba) a Mugabe (no Zimbábue) passando por al-Bashir (no Sudão), temos um verdadeiro festival de campeões de popularidade.

Todos esses autocratas, a despeito dos votos que teriam ou tiveram, eram e são ilegítimos. Lula deveria refletir sobre isso.

Mas, independentemente do resultado do segundo turno, uma derrota política mais profunda do lulo-petismo já começou.

Porque a degeneração da política que atingiu o coração do governo-partido aborreceu seu público mais íntegro e criativo. Quem tinha um pouco de honestidade e espírito inovador não via a hora de pular fora daquele antro.

Quando apareceu uma candidatura alternativa, como a de Marina, a porta se escancarou. Militantes, simpatizantes e eleitores que ainda votavam no petismo para não parecer retrógrados acorreram para a saída, aos milhões.

Marina contribuiu para separar o joio do trigo numa base eleitoral que o governo acreditava cativa.

Abriu uma fenda no esquema neopopulista, que só tende a se alargar. Lula e o PT ficaram com o joio.

Restaram-lhes, além das vítimas do clientelismo assistencialista e os mesmerizados pela sua retórica, os militantes mais deformados e os negocistas da política.

Tudo isso dependeu, em parte, do discurso inovador de Marina, mas, muito mais, da situação que objetivamente se configurou.

Mesmo que ela, Marina -tentada a se construir como liderança mítica substituta de Lula ou como chefe de uma espécie de "PT do bem"-, não recomende o voto em Serra no segundo turno (o que seria um erro), o estrago no lulo-petismo está feito.

AUGUSTO DE FRANCO, 60, escritor, é autor, entre outras obras, de "Alfabetização Democrática". Foi conselheiro e membro do Comitê Executivo da Comunidade Solidária durante o governo FHC (1995-2002). Foi membro da direção nacional do Partido dos Trabalhadores de 1982 a 1993.

Folha de São Paulo, 05/10/2010

sábado, 11 de setembro de 2010

Pesquisa Datafolha

Estável, Dilma tem 56% dos votos válidos


Vantagem da petista sobre José Serra é de 23 pontos; quadro está praticamente inalterado desde 23 de agosto

Candidata do PT tem 50% dos votos totais contra 27% do tucano e 11% de Marina; quadro é de vitória no 1º turno

FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

Pesquisa Datafolha realizada nos dias 8 e 9 mostra estabilidade na disputa pela Presidência: Dilma Rousseff (PT) tem 50% e José Serra está com 27%. A diferença entre eles é de 23 pontos.

Em levantamento nos dias 2 e 3, Dilma também tinha 50%. Serra tinha 28% e oscilou negativamente um ponto. A margem de erro máxima da pesquisa é de dois pontos, para mais ou para menos.

O quadro permanece estável desde o fim de agosto.

Marina Silva (PV) está com 11%. Votos brancos, nulos ou em nenhum somam 4%. Os que não sabem são 6%.

A revelação de que a filha do candidato do PSDB, Veronica Serra, teve o sigilo fiscal quebrado não alterou o quadro geral da disputa.

Encomendada pela Folha e pela Rede Globo, a pesquisa Datafolha ouviu 11.660 eleitores com 16 anos ou mais em 414 municípios, em todas as unidades da federação.

De acordo com o Datafolha, se a eleição fosse hoje, Dilma venceria no primeiro turno com 56% dos votos válidos (os que são dados aos candidatos). Serra teria 30%. Marina fica com 13%.

Apesar da estabilidade nos seus números gerais, o levantamento traz alguns indícios de alterações nas curvas de Serra e de Marina.

Piorou a situação de Serra em Minas, segundo colégio eleitoral do país. Em 23 e 24 de agosto, ele tinha 29% e Dilma, 48%. Agora, ela foi a 51% e ele a 24%. A diferença subiu de 19 para 27 pontos.

Caiu também outro bastião serrista: Curitiba, a única capital de Estado pesquisada pelo Datafolha na qual o tucano tinha vantagem sobre a petista.

Na pesquisa anterior, Serra tinha 40% contra 31% de Dilma. Agora, ela está com 36% e ele desceu para 35%.

Essas quedas regionais do tucano refletem a curva geral. Ele saiu de 30% em 20 de agosto para os atuais 27%.

Já a verde Marina Silva também está estável de maneira geral, mas ganhou pontos entre os mais escolarizados (saiu de 19% e foi a 23%) e entre os que têm renda acima de dez salários mínimos mensais (de 14% para 20%).

Em alguns segmentos, Marina se aproxima de Serra. Entre os que têm renda média de cinco a dez salários por mês, a verde está com 21% contra 27% do tucano.

Marina mantém 10% entre os eleitores que avaliam o governo Lula "bom" ou "ótimo". Serra teve 34% dos votos lulistas. Hoje tem 20%.

Folha de São Paulo, 11/09/2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Explicando o óbvio

"É a economia, estúpido!"

(James Carville, marqueteiro da campanha de Clinton em 1992)


Tudo indica que Dilma Rousseff vencerá a campanha presidencial no primeiro turno. Não é difícil entender as razões. Quase tudo se explica pelo sucesso do Governo Lula, particularmente na economia.

Lula conseguiu construir o melhor dos mundos. Preservou os interesses dos banqueiros, pagando a maior taxa de juros do mercado financeiro internacional na remuneração dos títulos da dívida pública. Cooptou as grandes empreiteiras, através de relevantes investimentos em obras de infra-estrutura que podem ser simbolizados pelo PAC - Plano de Aceleração do Crescimento. Atendeu os interesses das grandes empresas, por intermédio de generosos e subsidiados empréstimos do BNDES, sob o pretexto de financiar empresas brasileiras para se tornarem líderes mundiais em seus respectivos mercados.

Mas a jogada de mestre foi a "criação de um mercado interno de consumo de massas", sempre preconizado pelo PT, elevando a capacidade de consumo das assim chamadas "classes C, D e E" através de políticas sociais de transferência direta de renda tais como o Bolsa Família, ou da correção do valor do salário mínimo acima dos índices inflacionários, ou da expansão da base da Previdência Social, ou ainda da muito relevante ampliação do crédito subsidiado para a agricultura familiar através do PRONAF.

Assim, simultaneamente, melhorou o poder de compra de milhões de brasileiros, que ingressaram no mercado consumidor, e possibilitou maiores ganhos ao setor empresarial, que expandiu seus negócios para atender essa nova demanda.

Além disso, manteve sob controle os "movimentos sociais" tradicionais (as centrais sindicais, a UNE, o MST, dentre outros), que passaram a receber um volume extraordinário de recursos públicos, sob a condição de total e completa domesticação.

Isso explica porque não existe oposição relevante contra o Governo Lula, apesar dos problemas na saúde, na educação, na segurança pública, no saneamento, no transporte urbano, no déficit habitacional, na corrupção política, etc.

A questão é: até quando poderá ser mantida esta situação? Indicadores mostram que há um grande crescimento no "endividamento das famílias", enquanto o "consumo das famílias", a grande mola-propulsora do crescimento econômico recente até mesmo num cenário de crise financeira internacional, começou a declinar. Aumenta também o déficit público, a despeito da elevada carga tributária e dos recordes de arrecadação. Aproxima-se a hora do acerto de contas!

Mas Lula vai deixar o problema para Dilma. Quando vier o arrocho, muita gente vai pensar: "Bom mesmo era no tempo do Lula. Tinha emprego, salário, inflação baixa, a gente podia comprar televisão, geladeira, celular, moto, etc." Será a chave para o movimento "Volta Lula". Logo mais, em 2014.

Mas seria injusto atribuir todo o mérito apenas à política econômica de Palocci, Mantega e Henrique Meirelles.

Lula também tem seu mérito particular. Além de ser uma liderança carismática com incrível capacidade de comunicação popular, é um arguto negociador político e estrategista eleitoral.

Lula construiu uma estratégia e a executou rigorosamente:
(a) cuidou para que seu governo tivesse a melhor avaliação possível;
(b) manteve os aliados tradicionais e trouxe o PMDB, garantindo o maior tempo de TV;
(c) controlou completamente o PT, a ponto de impor a candidata que desejou;
(d) inviabilizou a candidatura do Ciro;
(e) interviu nos palanques estaduais para garantir chapas competitivas em todos os estados;
(f) beneficiou e depois pressionou os empresários para obter doações de campanha, arrecadando o dobro da soma dos demais candidatos;
(g) operou, no momento oportuno, para inflar a candidatura do Serra e esvaziar a do Aécio, "escolhendo" o adversário mais fácil de derrotar;
(h) isolou a oposição, a ponto de ninguém querer ser identificado como "de oposição".

São esses dois fatores que explicam, sinteticamente, a situação atual de favoritismo de Dilma. Dilma é o produto desta estratégia. Poderia ser qualquer outra pessoa escolhida por Lula. Nenhum líder político constrói sucessores que possam ameaçar sua própria liderança. Lula escolheu Dilma porque não vê nela uma ameaça. Ponto.

Dilma vencerá porque os eleitores estão satisfeitos com o Governo Lula e desejam sua continuidade. Lula conseguiu comunicar aos eleitores que Dilma é a continuidade do Governo Lula. A oposição foi anulada por sua própria incapacidade de explicar o presente e oferecer uma proposta sedutora de futuro. Ninguém troca o certo pelo duvidoso. Dilma é mais do mesmo. Então tá bom. Deixa assim.

Só não me venham com nenhuma conversa mole de querer atribuir algum caráter inovador, progressista ou de esquerda para a candidatura Dilma. É a candidata dos banqueiros, das empreiteiras, do grande empresariado, dos "movimentos sociais" cooptados e silenciados, dos partidos acomodados aos seus cargos no Governo, da campanha milionária, da militância remunerada, do PT rendido à lógica da manutenção do poder a qualquer custo. Ignorar isso é apenas uma forma cínica ou ingênua de auto-engano.

Juarez de Paula

Limites do crescimento

10% verde


Candidatura de Marina Silva esbarra nos limites da agenda ambiental, incapaz de romper a onda desenvolvimentista cavalgada por Lula e Dilma

Aos poucos se torna evidente que a candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente e senadora Marina Silva (PV) à Presidência da República esbarrou num teto de cerca de 10% nas pesquisas de intenção de voto. O desempenho limitado, até agora, decorre da precariedade de sua campanha, sobretudo do diminuto tempo de TV, em comparação com os adversários do PT e do PSDB.

No entorno da candidata verde, e mesmo fora do círculo de sua campanha, havia certa expectativa de que mensagens mais programáticas e substanciais poderiam romper a moldura plebiscitária da eleição. O cerco marqueteiro ao debate de propostas logrou substituí-las por imagens irreais e promessas sem lastro.

Com o apoio de novas mídias, esperavam os verdes galvanizar parcelas crescentes do eleitorado, a começar pelos jovens. Estes estariam mais abertos a considerar as questões centrais do país sob a ótica da sustentabilidade, com ênfase em problemas ambientais.

Em lugar de crescimento pelo crescimento, Marina se pauta por uma noção de desenvolvimento mais larga. Para além da economia, incorpora a ela temas como qualidade de vida, realizações humanas e preservação de recursos naturais para gerações futuras.

A julgar pela reação do eleitorado até aqui, a mensagem verde não ecoou. Nem mesmo entre os que têm de 16 a 24 anos a candidata do PV alcança vantagem significativa. Segundo o Datafolha, 20% das intenções de voto que lhe são dedicadas provêm dessa faixa etária, fatia praticamente igual à representada pelo grupo no total da amostra (19%).

Além de não sensibilizar a juventude, Marina Silva tampouco consegue falar para o Brasil demograficamente mais relevante. As intenções de voto que atrai se concentram nas camadas de maior escolaridade e renda nas capitais. No Nordeste, por exemplo, sua penetração é diminuta.

Junto à população mais pobre do país, não há páreo para o efeito avassalador da progressão do salário mínimo e da distribuição de benefícios sociais como Bolsa Família. Para esses brasileiros, é indubitável que a vida melhorou nos oito anos de governo Lula. Os dividendos políticos do avanço social são colhidos por Dilma Rousseff nas urnas.

José Serra não tem conseguido conter a maré lulista, mesmo comprometendo-se a manter seu curso. Não se concebe, assim, que Marina Silva, só com um partido débil e propostas de rever a própria noção de crescimento econômico (o que para muitos se traduz como um esforço para contê-lo), possa ter mais sucesso.

Marina abriu mão de uma reeleição mais ou menos tranquila para o Senado em favor de uma candidatura presidencial com chances mínimas. Atribuiu-se a missão de aprofundar o debate, muito necessário, sobre qual feição assumiria o desenvolvimento do país em direção a uma economia de baixo carbono.

Serão necessárias uma ou mais eleições para que Marina Silva consiga se fazer ouvir. Nada demais para quem passou 16 anos no Senado e no governo falando quase sempre para as paredes.

Editorial da Folha de São Paulo, 06/09/2010

domingo, 5 de setembro de 2010

Pesquisa Datafolha

Dilma tem 50% e Serra 28%, diz Datafolha


Apesar da estabilidade na pesquisa, número de eleitores que acham que petista vai ganhar sobe de 63% para 69%

Quadro fica estável pela 1ª vez desde início do horário na TV; Marina tem 10%; em eventual 2º turno, Dilma venceria

FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

Pesquisa Datafolha realizada ontem e anteontem em todo o país mostra estabilidade no quadro eleitoral: Dilma Rousseff (PT) oscilou de 49% para 50% em uma semana, e José Serra, que estava com 29%, tem 28%. Marina Silva (PV) está com 10%, contra 9% da semana anterior.

É a primeira vez desde o início do horário eleitoral que não há grandes mudanças no quadro da disputa presidencial. As pequenas oscilações foram todas dentro da margem de erro (de dois pontos percentuais).

Os que pretendem votar em branco, nulo ou nenhum são 4%. E 7% estão indecisos. Candidatos de partidos pequenos não chegam a 1%.

Em capitais e regiões metropolitanas ocorre o melhor desempenho de Marina Silva. Ela chega a 14%, contra 27% de Serra e 47% de Dilma.

Se a eleição fosse hoje, pelo Datafolha, a candidata do PT venceria no primeiro turno. Teria mais de 50% dos votos válidos -os dados apenas aos candidatos, descontados os brancos e os nulos.

Nessa conta de votos válidos, Dilma tem 56%. Serra tem 32%. Marina vai a 11%. Os percentuais são semelhantes aos da semana passada: 55%, 33% e 10%.

Num eventual segundo turno, a petista também venceria o tucano por 56% a 36% dos votos. Haveria 5% votando em branco, nulo ou nenhum e 4% ainda indecisos.

Na pesquisa espontânea, quando os entrevistados falam em quem desejam votar sem ver uma lista de nomes, Dilma marcou 38% contra 35% na semana passada, indicando que sua tendência de alta continua.

Serra oscilou apenas dentro da margem de erro na sondagem espontânea, indo de 18% para 19%. Marina saiu de 5% e foi a 6%.

Há outros dois indicadores relevantes que foram positivos para Dilma: a taxa de rejeição dos candidatos e a percepção de vitória por parte do eleitorado. A petista é rejeitada por 21% dos eleitores. Tinha 19% na semana passada.

Já Serra, era rejeitado por 24% em julho. Foi a 28% no começo de agosto. Agora, 31% dizem que não votariam no tucano de jeito nenhum.

Marina Silva é rejeitada por 17% -tinha 16% na semana passada.

Quando o Datafolha pergunta quem o eleitor acredita que vai vencer a eleição presidencial de 3 de outubro, Dilma continua sendo a escolhida pela maioria. Hoje, 69% dizem que a petista vai ganhar. Na semana passada, o percentual era de 63%.

Só 15% acham que Serra será o vencedor -pouco mais da metade dos que declaram voto no tucano. No caso de Marina Silva, 1% acredita na sua vitória.

Segundo o Datafolha, 51% declararam ter assistido os programas do horário eleitoral -contra 39% na semana anterior. Isso significa que muitos eleitores tomaram conhecimento dos fatos dos últimos dias, inclusive do vazamento de dados fiscais sigilosos da Receita Federal.

Folha de São Paulo, 04/09/2010

Pesquisa IBOPE

Tucano está a 24 pontos de petista, diz Ibope


DE SÃO PAULO

A pesquisa Ibope divulgada ontem aponta que a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, tem 51% das intenções de votos contra 27% de José Serra (PSDB), o mesmo da pesquisa anterior feita entre 24 e 26 de agosto.

Marina Silva (PV) oscilou de 7% para 8%. Brancos e nulos somam 6%, e indecisos são 7%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou menos.

A pesquisa, que foi feita de 31 de agosto a 2 de setembro entre 3.010 eleitores, foi encomendada pela TV Globo e pelo jornal "O Estado de S. Paulo".

Folha de São Paulo, 04/09/2010