terça-feira, 16 de março de 2010

Entrevista com Guilherme Leal

"Neófito", sócio da Natura hesita em ser vice de Marina


MALU DELGADO
da Folha de S.Paulo

Aos 60 anos, o empresário Guilherme Leal, fundador e co-presidente do Conselho de Administração da Natura, se define como um "neófito" na política. Nessa condição, se preocupa com a exposição --pessoal e empresarial-- a que estará submetido com a aproximação da pré-candidata do PV à Presidência, Marina Silva.

À Folha, ele afirma que, por conta disso, ainda não decidiu se aceitará ser vice de Marina. "O tempo está passando, os netos vão chegando, e nossos papéis dentro das empresas vão se transformando", diz ele, ao explicar as razões para entrar na política. Leia a seguir trechos da entrevista.

FOLHA - O que leva um empresário bem sucedido a entrar para a política num país com tantos problemas no sistema político eleitoral?

GUILHERME LEAL - Nos últimos 20 anos tenho tido grande envolvimento com diversos movimentos da sociedade civil, além do envolvimento na Natura, ligada a movimentos de responsabilidade social e ambiental de empresas. Sempre entendemos que mercado, sociedade civil organizada e o Estado moderno e eficiente são um tripé. Até hoje, sempre tínhamos atuado na vertente de mercado. Há 20 anos eu atuo também na sociedade civil. Neste momento, passei a considerar essa hipótese de atuar também na política. Um banquinho com três pés não se sustenta se um não estiver funcionando a contento. Sem um Estado que introduza na sua visão de desenvolvimento esses elementos do socioambientalismo, dificilmente poderíamos obter resultados mais efetivos. Daí foi a ponte para uma atuação na política e daí o encontro com a Marina Silva.

FOLHA - A filiação foi negociada e intermediada por Marina Silva?

LEAL - Marina é uma pessoa muito inspirada e inspiradora. Ela teve o dom e a capacidade de me convencer que a filiação era um gesto político importante. E eu cedi. Infelizmente no Brasil as pessoas de bem têm se afastado da política. Precisamos quebrar essa tendência. De alguma forma, precisamos fazer com que as pessoas que querem o bem deste país, que têm um compromisso ético, com a questão pública, voltem a se envolver com as questões de Estado.

FOLHA - Houve retrocesso no tratamento da questão ambiental com a saída da Marina Silva do governo?

GUILHERME LEAL - Eu acho que precede a saída da ministra Marina. O ambiente estava sendo colocado como vilão do desenvolvimento, ao contrário do que imaginamos. Isso fez com que diversas pressões sobre a legislação existissem, para que houvesse retrocessos da legislação ambiental vigente, e embates no ministério.

FOLHA - A entrada de Marina na disputa obrigou José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) a introduzir a questão ambiental na agenda?

LEAL - Eu acredito que sem dúvida nenhuma a entrada de Marina teve um efeito. A nossa própria participação em Copenhague, por exemplo, foi qualificada. Agora, até que ponto isso é retórica e até que ponto é uma mudança efetiva só o tempo vai dizer. Eu não vejo, para ser honesto, essa visão de futuro quando se analisa com mais profundidade os programas até agora divulgados. A gente vê ainda de uma maneira marginal a questão ambiental.

FOLHA - O programa de Marina Silva será ambicioso a ponto de responder esses desafios?

LEAL - O programa da Marina proporá, sim, eixos estruturantes para pensar de maneira diversa qual infraestrutura queremos e como de fato fazer da educação uma prioridade que até hoje nunca teve.

FOLHA - Esse discurso "a educação será prioridade" é comum e fácil, adotado por vários políticos. O sr. poderia detalhar isso?

LEAL - Significa aumentar investimentos em educação. Precisamos de meta de universalização da pré-escola. São propostas genéricas, mas precisamos de um ensino fundamental de qualidade. Todo mundo fala isso, mas ninguém fez isso efetivamente. Dá para dizer que o governo Lula fez isso efetivamente? Dá para dizer que o governo Fernando Henrique fez isso efetivamente?

FOLHA - Na economia, o PV prega um "neoliberalismo sustentável"?

LEAL - Não sei o que é neoliberalismo sustentável (risos). Eu não sei e não gosto de rótulos. Então não vou explicar o que eu não sei o que é. Os governos de Fernando Henrique e Lula foram anos muito positivos. Então falar de descontinuidade dessas principais políticas, seja no campo macroenômico ou social, seria desrespeito ao povo brasileiro. Agora, isso não implica em não falar de mudanças. Estamos falando de mudanças estratégicas, não gerenciais. Nenhum governante minimamente responsável pode entrar e querer mudar a política macroeconômica em curso ou programas sociais que claramente estão funcionando e precisam evoluir.

FOLHA - Como o sr. recebe essas críticas internas, do PV? O ministro Juca Ferreira [Cultura] disse que o partido sofre de escoliose à direita.

LEAL - Na condição de neófito eu me permito receber com muita tranquilidade essas divergências partidárias. Aliás, o ministro acabou de pedir licença por um ano do partido para exercer sua opção [apoio a Dilma Rousseff] com maior liberdade. O PV, como a maioria dos partidos, nunca foi homogêneo nas suas posições, e continua não sendo. É um partido que está em processo de revisão de si mesmo, do seu programa, de suas estruturas, de seus processos. Na verdade, os partidos precisam ser repensados. A gente sabe que a reforma política está sempre para acontecer, mas algo impede que isso ocorra. Então não vamos querer cobrar de um partido ou outro uma coerência total que não vemos no conjunto.

FOLHA - A Natura fez uma doação a Marina em 2002. Fará de novo?

LEAL - Minha decisão é pessoal e não tem absolutamente nada a ver com Natura. Sou grato aos meus sócios, que aliás são inúmeros, por respeitarem a minha decisão e apoiarem. Mas são coisas absolutamente distintas. A posição de Natura é clara e explícita: ela não financia. Ela financiou esse caso que você mencionou, uma quantia irrisória, e na época não tinha essa política estabelecida.

FOLHA - O sr. é a favor do financiamento público de campanha?

LEAL - Sou, apesar de achar que não é a panaceia universal. Não coibirá eventualmente o chamado caixa dois. Não sei exatamente como reduzir a influência do capital. Não acho que o financiamento de A ou B para X ou Y necessariamente significa corrupção. O importante é saber se os atos de governo atendem ao bem público ou não, ou são recompensas por aquele financiamento. essa é a questão central.

FOLHA - Como viabilizar financeiramente a campanha de Marina Silva?

LEAL - Existe a preocupação. Sabemos que será uma campanha modesta quando comparada aos pré-candidatos colocados há mais tempo. Acreditamos na força das ideias, na mobilização de Marina. Sabemos que teremos pouco tempo de TV e isso será uma dificuldade. A proposta de Marina é importante para a construção de alternativas de novos pensamentos não maniqueístas, que quebram essa polarização que há tanto tempo domina a política brasileira e que tem impedido que os melhores quadros possam governar esse país e acordos mínimos de governabilidade.

FOLHA - Essa polarização à qual o sr. se refere é do PT versus PSDB?

LEAL - É sim. Acho que se por um lado PT e PSDB foram forças estruturantes da política brasileira nos últimos 20 anos, essa polarização e a falta de um diálogo em torno de plataformas mínimas de governabilidade representaram um atraso para a política brasileira e acabaram provocando alianças menos nobres e processos que estamos aí vendo, nos diversos campos. Tem a ver com a construção de maiorias se utilizando de métodos pouco republicanos.

FOLHA - Que métodos?

LEAL - Temos o mensalão de Brasília, o mensalão de Minas, o do Congresso Nacional. Temos vários mensalões sendo apurados, de todos os lados. E isso não engrandece a política brasileira.

FOLHA - Como o sr. avalia o governo Lula, nos dois mandatos?

LEAL - O simples fato de ele assumir o poder foi um grande avanço para a democracia. O fato de, ao assumir, preservar o que havia sido feito foi um sinal de maturidade muito importante. A capacidade do presidente Lula de se comunicar com a população brasileira foi um fator absolutamente relevante para construir um consenso mais amplo, diálogo mais amplo com diversos setores da sociedade brasileira. Sem dúvida, a ampliação de políticas sociais do governo Lula foi muito significativa e gerou uma ativação da economia maior que a imaginada. A redução da curva de pobreza foi muito importante. Do ponto de vista da ética na política eu me preocupo porque houve como se fosse uma aceitação de que certas práticas, como falávamos há pouco de financiamento, são aceitáveis e inevitáveis na política. Isso eu não acredito que possa ser uma base para um futuro saudável de uma nação. Me preocupa também essa questão de um Estado que se amplia. Me preocupa a falta de transparência em algumas decisões do Estado. Como política externa, essa lógica multipolar é meio estranha, esses flertes do presidente Lula com lideranças pouco democráticas. Valores fundamentais deveriam estar um pouco mais presentes. Pragmatismo em excesso às vezes se torna perigoso.

FOLHA - O sr. separou as pessoas física e jurídica. Guilherme Leal será vice de Marina?

LEAL - O Guilherme Leal está em processo de decisão. Tem o partido para decidir, tem o Guilherme para decidir. É uma decisão difícil. Eu acho que há circunstâncias pessoais e políticas que fazem com que o momento certo ainda não tenha chegado. Está em fase final de amadurecimento. Tenho dúvidas pessoais e políticas.

FOLHA - O sr. é citado na Forbes como uma das grandes fortunas do mundo. Isso o constrange?

LEAL - Sem dúvida. A gente teve sempre uma posição muito de baixo perfil. Pessoalmente nunca me expus mais que o indispensável ao exercício das atividades profissionais. Esse grau de exposição, eu tenho que ser sincero, me incomoda um pouco, apesar de não ter nada a esconder. Estou considerando com muito carinho.

FOLHA - Quem são os políticos que o sr. admira hoje?

LEAL - O Al Gore tem tido um papel muito importante como consciência mundial. Está faltando liderança, né? O Obama, apesar do ano difícil que está enfrentando, espero que venha a demonstrar boa liderança. A Europa infelizmente não está apresentando muitas lideranças dignas de maiores destaques.

FOLHA - Em entrevista à Folha, Al Gore afirma que a crise do clima pode ser solucionada com folga. O sr. concorda com isso?

LEAL - Concordo com ele que soluções existem, é uma questão de ter vontade política de persegui-las. Aí é que a grande diferença de ver o ambiente como um problema ou como uma enorme oportunidade. E eu entendo como grande oportunidade.

FOLHA - E no Brasil?

LEAL - No Brasil Marina Silva!

Editorial da Folha

Marina, boa surpresa


O coordenador da pré-candidatura de Marina Silva (PV) à Presidência, Alfredo Sirkis, lançou mão de uma fórmula astuciosa para indicar o lugar da senadora no espectro ideológico: ela não se encontraria nem à esquerda, nem à direita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva -mas à frente.

A ideia de uma opção eleitoral "pós-Lula", que resiste à desgastada e por vezes enganosa oposição entre petistas e tucanos, é uma estratégia pertinente.

Ajusta-se, antes de tudo, à marca da candidatura, que prescreve novas relações entre economia e ambiente - algo difícil de ser enquadrado nos surrados rótulos esquerda e direita. A pauta ambiental, aliás, desperta com frequência rejeições das duas alas, embora tenha-se tornado eleitoralmente vantajoso posar de defensor da natureza.

Essa ambiguidade é nítida na súbita "conversão" ao discurso contra o efeito estufa da ministra Dilma Rousseff -a "mãe" do desenvolvimentismo estatal. De maneira análoga, na oposição é comum a transigência com agressões ao ambiente, embora o governador José Serra também tenha anunciado metas de redução de emissões em São Paulo.

Mas se a presença de Marina cobra dos adversários mais atenção com a temática ecológica, sua candidatura, em sentido contrário, vê-se instada a apresentar propostas consistentes em outras áreas. É o que tem feito -e até aqui de modo mais claro do que os rivais. A entrevista com o possível vice da chapa, o empresário Guilherme Leal, que a Folha traz hoje, é prova disso.

Sabe-se que a candidata dará ênfase à educação; que defenderá uma concepção moderna de Estado, mais leve e eficiente; que será favorável à racionalização tributária; que preservará a autonomia do Banco Central; e que manterá o Bolsa Família.

Para quem imaginava uma postulação confinada a clichês verdes, Marina Silva vai-se revelando uma boa surpresa.

Editorial do jornal Folha de São Paulo, 16/03/2010

Como são feitas as pesquisas

Exemplo didático sobre a "objetividade" das pesquisas eleitorais

Sobrenome. Questionário de pesquisa do Instituto Mapear, do Rio, sobre a sucessão presidencial apresenta quatro candidatos, nesta ordem: Serra, Ciro Gomes, Marina Silva e "Dilma, a candidata do Lula". O instituto informou à Justiça Eleitoral que a sondagem "foi realizada por iniciativa própria e com recursos próprios".

 
Coluna Painel
Folha de São Paulo, 16/03/2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Artigo de Marina Silva

Além de si mesmo


A liberdade, um dos direitos básicos da vida, é algo tão visceral e tão intrínseco à condição humana que, em determinadas situações, não poder usufruí-la é como tornar-se um morto-vivo, individual e coletivamente. Quando algumas pessoas chegam ao ponto de subtrair aquilo que é essencial ao corpo, que é o próprio alimento, estão usando o que lhes resta para apontar para essa morte social anterior.

A palavra é tão importante quanto o pão. Há outros alimentos que são vitais, a que chamamos de direitos humanos, que incluem a liberdade de expressar opinião, a liberdade de divergir. O direito de não ser tiranizado. Ainda que a greve de fome seja um ato extremo, muitos encontram nela a última forma de protesto. Por meio dela encerraram-se injustiças, salvaram-se vidas e despertaram-se a consciência e a solidariedade. Historicamente ganhou destaque mundial com Gandhi e sua batalha contra a opressão colonial inglesa na Índia.

Embora meus códigos pessoais e religiosos sejam contrários à ideia de dispor da vida, não há como desconsiderar sua semelhança com o sacrifício de tantos mártires da humanidade que, em defesa de seus ideais e causas, chegaram ao extremo de perder a própria vida.

Para G. K. Chesterton, o mártir se preocupa tanto com alguma coisa além de si mesmo que se esquece de sua vida pessoal. Em suas palavras, o mártir é um portador de princípios e atitudes nobres "porque morre para que alguma coisa viva".

Nesse caso, o sacrifício acaba desencadeando um processo inescapável de interação, de corresponsabilidade, não só pela vida de uma pessoa, mas pela sobrevivência de valores basilares pactuados pela humanidade. É por isso que a política da não ingerência de um país nos assuntos internos de outro não pode significar a relativização de certos valores, mesmo que defendê-los possa nos criar alguns incômodos. Igualmente inaceitável é desqualificar o expediente e quem está expondo a ferida.

Uma forma de ser respeitoso e solidário é, às vezes, mostrar que nem sempre aqueles que são objeto de nossa lealdade estão certos. Nossa opinião sincera é também uma forma de lealdade.

Quando as contradições são empurradas para debaixo do tapete, em nome de quaisquer alinhamentos incondicionais, não existe parceria, e sim uma relação empobrecida de assimilação. Nesse caso, a cumplicidade mata, por inanição, a coragem para mudar e tornar o mundo melhor, onde quer que isso se coloque como desafio.

MARINA SILVA é Senadora (PV/AC).

domingo, 14 de março de 2010

Programa econômico de Marina

Projeto do PV inclui muito investimento e subsídios verdes


Economista vê "problemas sérios" nas finanças e defende meta de disciplina fiscal, como elevar gastos à metade da taxa do PIB
Para José Eli da Veiga, não existe viabilidade imediata para reforma tributária ou diminuição significativa da carga de impostos no país

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA
ANA FLOR
DA REPORTAGEM LOCAL


Especialista em sustentabilidade que se juntou à campanha de Marina Silva, José Eli da Veiga enxerga uma "bomba de efeito retardado" em preparação, "problemas sérios nas finanças públicas". Ele defende a adoção de uma meta de disciplina fiscal, como elevar gastos apenas à metade da taxa do PIB (se o país crescer 6%, a despesa poderia subir até 3%). "Não é um pensamento liberal, o próximo presidente terá de fazer."

Veiga não enxerga viabilidade imediata para reforma tributária ou redução significativa da carga de impostos. A ideia-força é utilizar tributos para desestimular atividades intensivas em carbono ou que prejudiquem o ambiente. Trata-se de "precificar" o carbono, ou seja, fazer com que atividades que produzam emissões de gases do efeito estufa -como a operação de usinas termelétricas- paguem um preço por isso.

A transição, porém, virá aos poucos. Afinal, já há muitas taxas e contribuições que incidem sobre o consumo de combustíveis. E a própria pré-candidata favorece o comércio de carbono, com adoção de limites para emissões e comércio de permissões para emitir, além do uso do poder de compra governamental para favorecer produtos com baixo carbono.

O Brasil tem de crescer, concordam os economistas em torno de Marina. "Precisa no mínimo 20% de taxa de investimento. Menos não tem cabimento" diz Veiga. O investimento estatal, no entanto, precisa ser revisto à luz da descarbonização, e não ficar subordinado às conveniências políticas e eleitorais, como no PAC.

"Todo país deveria ter um programa de aceleração do crescimento. É como soltar os leões", ilustra Ricardo Paes de Barros, do Ipea. "O que precisa, além, é domar os leões. Precisa de outro programa para converter crescimento econômico em crescimento humano."

Subsídios também devem ser empregados pelo governo para pôr a indústria e a agricultura na direção correta. Como fez Barack Obama, nos EUA em crise, ao exigir contrapartidas ambientais da indústria automobilística -e não dar "subsídio para compra de carro usado", como diz Alfredo Sirkis, coordenador da campanha de Marina, ou para pecuária.

"Nós queremos ser só um país exportador de commodities?" -questiona Guilherme Leal, provável vice. "Qual a nossa estratégia diante da China? Estaremos simplesmente atrelados ao crescimento chinês, sendo mais uma vez supridores de matérias primas básicas?"

O empresário não defende abandonar o atual modelo exportador, mas diz ser necessário parar para refletir. "É esse crescimento ilusório, que pode ser não sustentável e que a longo prazo pode comer a própria base de produção, que a gente questiona."

Um alerta de outro economista, Paulo Sandroni, baseado em uma experiência negativa dos EUA, é o endividamento da população que o governo permitiu. As medidas do governo Lula de expansão de crédito poriam em risco a estabilidade monetária: "O processo econômico também precisa ser sustentável, para não se cair na mesma armadilha de lá", diz.

Folha de São Paulo, 14/03/2010

Entrevista com Eduardo Giannetti

Para Giannetti, discurso econômico deve focar capital humano


Economista, cuja entrada na pré-campanha de Marina Silva foi criticada por aliados, rejeita rótulo de neoliberal e diz que se identifica mais com os clássicos

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, 53, foi o pivô de uma pequena crise na pré-candidatura de Marina Silva (PV-AC) à Presidência. Sua aproximação com a senadora, revelada pela Folha, chegou a ser interpretada como uma guinada neoliberal da campanha em preparação e rejeitada por vários simpatizantes.

O ex-trotskista, autor de "Vícios Privados, Benefícios Públicos?", entre vários livros, abriu uma exceção para declarar seu voto em Marina Silva, atraído pela promessa de um modo novo de fazer política no Brasil. Quem o levou até ela foi o empresário Guilherme Leal, provável candidato a vice na chapa, um dos donos da Natura e criador do Instituto Arapyaú, que tem Giannetti em seu conselho.

FOLHA - Qual é seu papel, no momento, na pré-candidatura de Marina Silva e qual deverá ser no futuro? Vai se envolver diretamente em formulação de programa de governo?

EDUARDO GIANNETTI DA FONSECA - Esse processo está começando, tenho tido conversas frequentes com a senadora. Minha presença é complementar. Não tenho perfil executivo e nunca me envolvi em processo eleitoral. Nem sequer declarei meu voto, até hoje. Sou um virgem. Me animei com essa perspectiva porque Marina passa uma postura diferente no modo de fazer política. O Brasil não precisa ser uma cópia imperfeita do padrão americano. Eu me pergunto: se tudo der certo no Brasil, nós viramos um Estado empobrecido do sul dos Estados Unidos? É esse o nosso sonho civilizatório?

FOLHA - Sua contribuição deve ser mais em política macroeconômica?

GIANNETTI - Sim, mas não só. Na construção de um projeto de país que não submete tudo às decisões econômicas. Aumentar o PIB de qualquer maneira não seria a ambição desesperada de todas as nações.

FOLHA - Em setores próximos de Marina, sua presença na pré-campanha foi rotulada como neoliberal e não muito bem vista.

GIANNETTI - Não sei em que essa rotulagem contribui para o debate. Como pessoa que passou boa parte da vida estudando escolas de pensamento, sei da dificuldade de carimbar posições. Exemplo: uma ideia tão cara ao PT quanto renda cidadã é de um economista tachado de neoliberal, Milton Friedman. As pessoas usam esses rótulos achando que estão dizendo alguma coisa, quando nem sabem o que estão dizendo.

FOLHA - Elas querem dizer tucano.

GIANNETTI - Tucano seria social-democrata. Se quiserem discutir bandeiras ideológicas, vamos lá. Tem neoliberalismo austríaco, de Chicago, de Virgínia, tem o liberalismo clássico. Eu me identifico muito mais com os liberais clássicos, Adam Smith, John Stuart Mill, Alfred Marshall -que, aliás, foi quem trouxe o capital humano para a reflexão em economia.

FOLHA - Como o sr. enxerga o PAC e o pré-sal? O que precisaria mudar da perspectiva de uma candidatura com propostas ambientais?

GIANNETTI - Gostaria de ver o mesmo empenho que o governo Lula deu ao PAC dado ao capital humano. Embora o Brasil tenha problemas sérios de capital físico e infraestrutura, o grande desafio secular sempre foi a sua incapacidade de formar capital humano. O Brasil nunca vai se tornar um país civilizado ou desenvolvido porque descobriu petróleo ou fez uma nova usina hidrelétrica. Esse fetiche do capital físico é uma herança do processo de desenvolvimento brasileiro.

FOLHA - E o pré-sal?

GIANNETTI - Tenho muitas dúvidas técnicas sobre o pré-sal, sobre custo de produção, o preço do barril quando o pré-sal se materializar. É economia suja. O Brasil está querendo dar um passo maior que a pernas. Quer aumentar o investimento, o gasto das famílias e o gasto corrente do governo -tudo ao mesmo tempo. A conta não fecha. Se insistir, dois tipos de desequilíbrio começam a aparecer: pressão inflacionária e desequilíbrio nas contas externas. Se não quiser permitir que aflorem, vai ter de aumentar o juro, tirar o barril de chope quando a festa começa a ficar animada.

FOLHA - Qual seria a alternativa?

GIANNETTI - Vamos ter de enxugar o gasto do governo. E provavelmente pensar mais em crédito para formação de capital do que em crédito para o consumo das famílias. Vamos ter de aceitar algum sacrifício agora para melhorar o futuro.

FOLHA - É provável que o debate eleitoral volte a opor estatismo e privatização. Haverá espaço para questões socioambientais?

GIANNETTI - Esse debate tem de ser feito de maneira mais inteligente. O Brasil precisa de um Estado forte, mas enxuto. O que nós temos hoje, para usar expressão do Sérgio Abranches, é um Leviatã anêmico. O Estado brasileiro faz muitas coisas que não deveria e deixa de fazer coisas que deveria.

FOLHA - O que está errado?

GIANNETTI - O papel que o BNDES está assumindo é muito preocupante. Lula descobriu em seu segundo mandato uma mágica perigosíssima: transferir recursos de dívida pública para concessão de empréstimos sem que isso entre no cálculo de superavit primário. E escolhendo por critérios nem sempre transparentes os parceiros que vão receber benesses desse crédito subsidiado.

Folha de São Paulo, 14/03/2010

Propostas econômicas de Marina

Marina constrói "liberalismo sustentável"


Austeridade fiscal e descarbonização serão as prioridades do programa econômico verde, que prevê revisão de PAC e pré-sal
Economistas que apoiam a senadora acham que Estado é pesado e ineficaz e querem cortar gasto, mas prometem manter programas sociais

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

ANA FLOR
DA REPORTAGEM LOCAL

O grupo de economistas e empresários que gravita em torno de Marina Silva, pré-candidata à Presidência pelo PV, considera o Estado brasileiro pesado e ineficiente e planeja cortar gastos. Rejeita, contudo, o rótulo de "neoliberal", que a senadora atribui à "satanização do debate". De formação de esquerda, Marina constrói um discurso econômico próximo a um "liberalismo sustentável".

A equipe descarta também a simbiose entre crescimento econômico e desenvolvimento que está na matriz do pensamento social-democrata -petista ou tucano. Para eles, crescer por crescer, sem "descarbonizar", é a receita do desastre.

"A necessidade de descarbonização das economias do planeta é inadiável, e obviamente o Brasil tem todas as condições de dar uma contribuição tanto na redução das emissões quanto no estabelecimento de um novo paradigma", diz a pré-candidata verde. "Acelerar não significa melhorar."

Não há ainda um grupo formal encarregado de formular um plano de governo. O alistamento de Eduardo Giannetti da Fonseca entre os apoiadores da pré-candidata do PV para a Presidência, contudo, lançou no ar a suspeita de "tucanização" da campanha.

A tese vem sendo reforçada pelas críticas verdes ao aumento das despesas correntes e à multiplicação de cargos comissionados no governo Lula. Os adeptos de Marina também não poupam o PAC e a euforia do pré-sal -críticas de "direita", se vistas da perspectiva dos ex-correligionários dela.

"Não estamos nem à esquerda nem à direita de Lula, mas à frente", rebate Alfredo Sirkis, vereador pelo PV no Rio e coordenador da pré-candidatura. "Queremos incorporar o que ele trouxe de bom e o que herdou de FHC. Não houve herança maldita, e o Lula sabe disso."

Num eventual governo do PV não haveria cortes em programas sociais como o Bolsa Família, apenas maior atenção para a chamada porta de saída (capacitação dos beneficiários).

O compromisso com austeridade fiscal seria evidenciado com medidas de impacto simbólico, como a extinção de pelo menos metade dos cargos comissionados de livre provimento, hoje em cerca de 23 mil.

Não se considera o Estado inchado, e sim "pouco republicano", nas palavras do empresário Guilherme Leal, da Natura, provável vice de Marina. Mas ele não quer nem ouvir falar em "Estado mínimo". "A discussão tem de ser eficiência e transparência do Estado, não tamanho", afirma Leal. "É inquestionável que o Estado tem de ser forte, indutor, regulador, provedor de serviços de qualidade." Além da Natura, Leal fundou o Instituto Arapyaú.

Não está definido ainda se o economista contribuirá diretamente com propostas para o programa de governo, que fica pronto em agosto. Pode ser que só se engaje em outro instituto, Democracia e Sustentabilidade, que congrega intelectuais próximos de Marina e será lançado em algumas semanas.

Há mais economistas e intelectuais dispostos a fornecer ideias para a campanha verde, mas não militância política. É o caso de José Eli da Veiga, da USP, especialista em sustentabilidade. Outros nomes já participam do grupo, como Sergio Abranches, sociólogo, Ricardo Paes de Barros, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada), Samir Coury e Paulo Sandroni, da FGV.

O ponto de convergência entre eles é a ideia de descarbonização. A ameaça do aquecimento global exige uma desaceleração do consumo de combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão), que lançam gases do efeito estufa na atmosfera e contribuem para aquecê-la.

Sem reduzir a emissão de carbono, não se pode falar em desenvolvimento, porque este não seria sustentável. Esse é o critério que definirá o sucesso ou o fracasso de toda economia nacional, portanto todo o debate econômico deveria ser prismado por ele. Nada a ver com o PAC e o pré-sal de Lula e de sua pré-candidata, Dilma Rousseff.

Folha de São Paulo, 14/03/2010